sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Caso de amor

" Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que que ela bota sentindo em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a sua estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver o rio de outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor."   - Manoel de Barros  

Livro: Memórias Inventadas 

3 comentários:

Jéssica disse...

Texto lindo *--*

Meu Mundo, Meu Estilo||The Diary of My World||My Little Big Diary

Dany Mendes disse...

Gostei muito do texto, ainda não conhecia! Obrigada por fazer parte do nosso grupo no facebook..

Seguindo e amando o blog.
Bj ^^

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Cami disse...

nhaaw que texto linduuuu *.

http://cafezinhoviciante.blogspot.com.br/